Carta da China

por Maria-Jo�o Greg�rio

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A heran�a de Deng Xiao Ping

Para compreender a China do s�culo XXI, temos que falar do antigo guarda da Longa Marcha. A sua vis�o foi a chave para a re-emerg�ncia do mais populoso pa�s do mundo. � o ponto de partida para entender a China moderna.

Os estudiosos da China tentam disputar qual o per�odo da sua hist�ria mais interessante. Se nos concentramos nos anos da China moderna - excluindo, portanto, diversas dinastias do Imp�rio do Meio -, uns analistas preferem destacar os feitos de Mao Zedong - nomeadamente a tomada de poder em 1949 ou mesmo a Revolu��o Cultural dos anos 60 -, enquanto que outros preferem considerar que foi a era de Deng Xiao Ping, essencialmente o per�odo de 1979 a 1984 com a adop��o de reformas econ�micas, que nos revelam o per�odo mais interessante e mais marcante da hist�ria da China moderna. Outros analistas considerar�o que o per�odo mais marcante seria ainda mais recente, o que antecede e sucede � entrada da China na Organiza��o Mundial de Com�rcio. O tema �, assim, um bom ponto de partida para esta primeira "Carta da China".

Contudo, qualquer estrangeiro que analise a Hist�ria da China, ou melhor, qualquer ocidental que tenha a possibilidade de viver na China durante algum tempo, ter� a tend�ncia para considerar a Era de Deng como a mais decisiva. N�o deveremos menosprezar a import�ncia e o interesse de qualquer dos per�odos da Hist�ria de qualquer pa�s, mas no que se refere � China moderna, n�o existir�o d�vidas de que o per�odo em que Deng Xiao Ping esteve no poder foi essencial para a fase hist�rica que a China hoje atravessa. Este per�odo hist�rico � de uma riqueza e singularidade impressionantes: assistir ao nascimento de uma enorme economia de mercado no s�culo XXI � algo de extraordin�rio e que tem uma dimens�o e globalidade que dificilmente conseguiremos hoje medir e sobre a qual h� dificuldade em enumerar todas as consequ�ncias.

Para podermos compreender a China do s�culo XXI, � fundamental perceber como foi poss�vel passar de uma China paup�rrima para uma China que despertou t�o r�pido mas, ao mesmo tempo, de uma forma t�o silenciosa, que parte do "resto do Mundo" ainda n�o se apercebeu efectivamente desta nova realidade. A actual orienta��o "Go Global" dada pelo Governo chin�s �s suas empresas s� � poss�vel porque o governo est� ciente de que produzir� efeitos.

Mas as quest�es s�o muitas: Est�o as empresas chinesas preparadas para entrar em cen�rios globais de neg�cio? Como podem as empresas chinesas ser actores importantes em cen�rios de globaliza��o? Como chegou a China ao lugar que hoje ocupa na economia mundial ? Gostar�amos de poder compreender como um pa�s que estava num estado de extrema pobreza p�de, em t�o pouco tempo - cerca de duas d�cadas e meia -, chegar aos n�veis de crescimento que hoje se verificam.

Ser rico � glorioso

A estrat�gia de Deng de prepara��o da China para o desenvolvimento econ�mico baseou-se em "Quatro Moderniza��es" que considerou necess�rias e fundamentais: a moderniza��o da agricultura, da ind�stria, da ci�ncia e tecnologia, e do sector militar. Mas Deng sabia, tamb�m, que seria necess�rio conciliar o passado socialista da China com o futuro de forma a n�o p�r em causa o sacrif�cio de gera��es que se devotaram � revolu��o comunista sob a orienta��o de Mao.

Na �rea econ�mica, esta compatibiliza��o pragm�tica foi resumida nos dois "slogans" mais c�lebres da �poca - "socialismo com caracter�sticas chinesas" e "economia socialista de mercado". E para encerrar o ciclo de compatibiliza��o do passado comunista com o futuro, para valorizar os sacrif�cios do passado encontrando um lugar para eles numa China pr�spera e rica, adoptou um outro slogan "ser rico � glorioso".

As reformas de Deng tinham o objectivo de acelerar o processo de moderniza��o da economia nem que para isso fosse necess�rio importar capitais, equipamentos e "know how" estrangeiros. Desta forma, o pa�s acumulou capitais, adquiriu tecnologias, conquistou alguns mercados e adquiriu algumas experi�ncias e boas pr�ticas de gest�o, promovendo n�o s� o crescimento econ�mico mas tamb�m acelerando o desenvolvimento social.

E Deng fechou e consolidou o ciclo das reformas econ�micas com a cria��o de Zonas Econ�micas Especiais (ZEE), espa�os territoriais onde eram concedidas condi��es especiais para a fixa��o de capitais estrangeiros e onde existia alguma liberaliza��o no funcionamento do mercado, semelhantes �s existentes nos pa�ses ocidentais, o que propiciou a atrac��o dos capitais estrangeiros necess�rios � acumula��o de capital e conhecimento. As cinco ZEE criadas por Deng foram Shenzhen (colada a Hong Kong), Zhuhai (perto de Macau) e Shantou, outra cidade costeira na Prov�ncia de Cant�o (Guangdong); Xiamen (no sul da Prov�ncia de Fujian); e toda a Prov�ncia de Hain�o (uma ilha no Sul da China).

Deng ser� sempre creditado como o l�der que adoptou as reformas necess�rias � anula��o dos efeitos negativos da Revolu��o Cultural, que restaurou a estabilidade e que trouxe um grande desenvolvimento econ�mico ao pa�s. Mas ser�, tamb�m, recordado como o homem que afastou os dissidentes pol�ticos, como o governante que, para controlar os efeitos das reformas econ�micas na esfera pol�tica, refor�ou os seus pr�prios poderes e os do Partido Comunista, como o decisor que esmagou o movimento estudantil na Pra�a de Tianamen em Julho de 1989, refor�ando a supremacia do poder pol�tico sobre o econ�mico e dando sinais claros de que a liberaliza��o na esfera econ�mica n�o poderia produzir efeitos democratizantes na esfera pol�tica.

Mas mesmo que controverso do ponto de vista da pol�tica interna, foi Deng quem desenvolveu o relacionamento estrat�gico da China com os pa�ses do Ocidente. Para atrair os capitais estrangeiros necess�rios �s suas reformas econ�micas havia que dar sinais ao Ocidente desta abertura. Assim, visitou diversos pa�ses europeus, encontrou-se com diversos lideres ocidentais. E foi tamb�m quem delineou a solu��o para a resolu��o da chamada "quest�o" de Hong Kong e de Macau com a h�bil cria��o da f�rmula "um pa�s, dois sistemas".

Ser� sempre uma figura controversa. Alguns observadores consideram que s� depois da sua morte, a China come�ou de facto a realizar verdadeiras reformas. Mas � injusto minimizar o papel de Deng Xiao Ping. Mesmo sabendo que muito ficou (certamente) por fazer e que o pa�s ainda ter� que enfrentar muitas outras reformas e muitos outros problemas, a sua vis�o e a sua ac��o foram decisivas para o actual desenvolvimento da China e sua afirma��o no cen�rio mundial.

Bilhete de Identidade r�pido

Deng Xiaoping nasceu em 1904, na Prov�ncia de Sichuan (no interior ocidental do pa�s) e morreu em Fevereiro 1997 sem que tivesse tido a oportunidade de assistir � concretiza��o de um sonho: a passagem da administra��o de Hong Kong para a China.

Deng foi guarda do Partido Comunista Chin�s, participou na Grande Marcha e tornou-se Secret�rio-Geral em 1954, mas foi exonerado por Mao em 1966 devido �s objec��es aos excessos da Revolu��o Cultural. Em 1974 � "reabilitado" e volta ao poder sendo nomeado vice-primeiro ministro. Em 1976 � de novo exonerado mas depois da morte de Mao em 1976 e do afastamento do "Bando dos Quatro" capitaneado pela mulher de Mao, Deng torna-se l�der da China at� � sua morte em 1997. Sucedeu-lhe Jiang Zemin.

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